quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

BOM ANO NOVO

Um Bom Ano de 2010, repleto de bençãos, paz, alegria, amor e acima de tudo muita solidariedadade com os mais desfavorecidos.
São os votos de todos os elementos do Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré para todos os seus amigos e conhecidos.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Federação do Folclore Português reune em Assembleia (II)


Conselheiros no terreno
Os Conselheiros Técnicos saltam de imediato para o terreno de visita aos grupos federados, aferindo o trabalho que estão a desenvolver e averiguando da necessidade de ajuda na correcção de eventuais desacertos de representação. A meta está no final de 2010, quando todo o trabalho já deve estar concluído. A partir de então, todos os grupos federados terão de afinar pelo mesmo diapasão: o rigor na representação.
A luz vermelha pode acender-se para alguns grupos que teimam em oferecer um trabalho reconhecidamente fraco, sem bases de uma acertada representação tradicional. Um defeito que, em muitos casos, vem de longa data e que nunca foi corrigido. Para outros, a luz amarela constituirá um pré-aviso para emendar pequenos pormenores. Mas também a luz verde vai decerto fulgir para bons trabalhos.
A acção de reorganização do universo folclórico federado que a Federação está a implementar, será uma derradeira tentativa para eliminar os graves erros da figuração tradicional que maculam o trabalho de muitos grupos. “Queremos que os grupos ofereçam uma efectiva qualidade, de forma a não levarem ao engano as organizações de Festivais ou de outros espectáculos”, apela o presidente da Federação, Fernando Ferreira.
Sinopse atrapalha
Numa das salas, foi particularmente discutido o termo “sinopse”, incerto no ponto 4 do guião e que diz respeito às apresentações temáticas. “O que é isso de sinopse? Nunca ouvi falar nessa palavra!”. O termo terá assustado um conselheiro como a outros confundiu. “É preciso que utilizemos palavras simples e que o comum dos mortais entenda. Só uma minoria de populares sabe o que é uma sinopse”, intercedeu o Insp. Lopes Pires, propondo a substituição do termo.

Itens do guião do Plano de Melhoria submetido à aprovação da assembleia de conselheiros
Caracterização Etnográfica da Região - Contextos geográficos, sociais, económicos, religiosos. Eventos históricos relevantes. Caracterização fundamentada dos limites temporais da representação.
Recolhas – Sobre o património material e imaterial que completa a etnografia da região, dos trajes à musica e às danças, como jogos, instrumentos, musicas, literatura oral, rituais religiosos, etc.
Apresentações públicas – Composição do grupo, reportório, trajes e representações temáticas.
Iniciativas de divulgação e apresentação – Calendário anual de iniciativas periódicas com fundamento etnográfico, mostras permanentes ou eventuais, publicações e gravações.
Evolução histórica – Registo histórico dos corpos sociais, eventos e actividade relevante no passado.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Vida e costumes dos pescadores (parte IV)

O trajo do Pescador caracteriza-se pelo uso de camisa de lã de padrão axadrezado e variável na cor; trozes ou ceroulas, de tipo e qualidade igual, mas geralmente de tons mais claros do que aquela, e, na alternativa, manaia branca ou crua, espécie de bragas em pano de algodão, cinta ou faixa, preta, de lã, franjada nas extremidades e, finalmente, barrete ou carapuça preta em malha de lã com borla do mesmo na extremidade.
Os trozes são de amarrar aos tornozelos mas, habitualmente, usam-nos arregaçados por altura do joelho. A manaia é usada especialmente no Verão, e só no mar.
De Inverno acrescentam o trajo com o gabão. Quando assim é, costumam arregaçar os trozes até à coxa e enrodilhar o gabão até à mesma altura, preso pela cinta, de forma a deixar-lhes livre o movimento das pernas.
O custo destas peças de vestuário são os seguintes; camisa 32 escudos, trozes 64, manaia 25, cinta e barrete 15 cada peça (1).
O trajo da vareira compõe-se de blusa de algodão, em tons claros e geralmente bordada ou lavrada; saia da mesma qualidade, de diferente cor e padrão em estamparia; avental da mesma qualidade, mas geralmente em contraste de cor com a peça antecedente; algibeira de pano preto de lã, debruada a galão da mesma qualidade, atada pela altura das ancas, em volta destas por debaixo do avental, com fita preta; cinta ou faixa, igual à do pescador, xaile de lã, de padrões matizados; lenço da mesma qualidade e género, dobrado em triângulo e colocado sobre o chapelinho, este, é geralmente em feltro preto com aba bastante estreita debruado de fita de veludo preto e, em volta da copa muito baixa, uma fita de seda também preta que abrange a sua altura e remata com um pequeno laço no lado direito; a completar o trajo chinelas pretas, lisas, de cabedal envernizado, e completa ausência de meias.
No Inverno as peças de algodão são substituídas por outras de lã, de cor lisa; xaile mais espesso, igualmente liso; e usam meias de lã em cores claras, brancas de preferência, sem guarnição alguma.
Relativamente ao seu custo registam-se hoje os preços que seguem: blusa 17 escudos, saia 14,50, avental 14, algibeira 6.5, cinta 15, xaile 100, lenço 60, chapelinho 40, chinelas 100, blusa de Inverno 32, saia 30.5, xaile 200 e meias 12 (2).
Sempre que o marido embarca para a pesca em terras longínquas ou mesmo em busca de outros horizontes na miragem de economia mais ampla, costuma a vareira substituir o trajo por outro semelhante mas de cores escuras, aquela que melhor exprime a sua dor de ausência. E se no decurso do tempo o mar já não volta a traze-lo, como tanta vez acontece, enverga então o trajo negro que não volta mais a trocar pela cor.
Expressiva rubrica na psicologia admirável da gente da Beira-Mar.
(1) Em 1940: camisa 22.5, trozes 23.5, manaia 4.5 e 5. Tanto a cinta como o barrete; verifica-se assim um agravamento entre 40% a 200 % sobre o custo de então.
(2) Eram em 1940: blusa 8.5, saia 6.5, avental 6.5, algibeira 2.8, cinta 5, xaile 42, lenço 25, chapelinho 16, chinelas 45, blusa de Inverno 17, saia 15, meias 6; oscila portanto entre 100% a 200% mais, o seu custo actual.

FIM
Artigo publicado no Livro do XVIII Festival realizado em 6 de Julho de 2002.

sábado, 19 de dezembro de 2009

O linguajar dos gafanhões (parte V)

E este quadro do Padre Resende, duma riqueza tão ingénua, quanto encantadora, em que dois irmãos falam de uma irmã e do seu namorado. Ouçamo-los, sem tradução, para não perturbar a poesia:
“ — Atão Manele, a nocha M’ria deu-t’oje um quinau, hein?! ... Olha qu’ela quer butar fegura ó pé do Zé B’china, que acolá arranca mulicho como moiro. Cando anda consumida câ bida nem ‘scansa.
— Olha cá, F’cico, a nocha quechopa, nu é p’rá gabar, mas val’ mais có Zé B’china, o namurado. Ó pé dele anda sempre toda concha!
Em dois tempos chegó dia grande. Ouvi-les umas palavrinhas! ... No dia da festa da Chanta, verás que ‘tão casadinhos!...
— Chá me dixeram co sôr Prior deu os banhos na nossa ingreja de Bagos.
— E tamém ela deu ali um banho na auga do rio!
— Nu sê. Ela é uma medalha de rapariga. Olha cá, a cachopa val canto pesa. Nu é só pr’àpanhar mulicho. Nas rasgatas do rio é uma bardasca!
— Canté! Nas rasgatas de num passado (ano passado) foi à pincha e ganhou o primeiro prémio. Inté os fidalgotes lhe catrapiscavam os olhos c’mós namurados. E olha qu’ela não dizia que não!
— Poi xim; mas ela não acardita nesses pardalões que nu vesam chêta e que a criam p’ra...
— Ai! Caredo! ... Mais balia a morte que tal sorte. Ó menos c’o Zé B’china nu há selistro; trabalha muito e é um poipadão. E p’ra cantar ó devino ou na ingreja tem falas como um canairo.
— É certo. E a cantar o “sacerdote” antes do sôr padre ir pr’ó altar! A fala dela parece um orgu.
— Que raça! Aqui pr’à gente: o sôr pai e a sâr mãe ‘stão como três num sapato coa quechopa.
— Nam qu’ela é um inzemplo de lindeza. Ali a Filha do Toino Maluco num tem charavelha nenhuma.
— Essa parece um cadable a andar. Não tem lastro nem tri-ló-lé nenhum.
— E onte, a mazona, apanhou uma ralhada da mãe que a pôs à curta. Até me faz desperar tanta ruindade.
— Prontos. Deixemos o barco inté amanhê, c’a mãe ´stá à ‘spera.”
E por aqui ficamos que decerto também estão à espera que terminemos. Não sem antes, porém, deixarmos aqui o desafio ao Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré e a quantos se interessam por estas coisas do nosso passado, afinal tão rico, para que o façam reviver através de estudos que nos permitam quadros para mostrar às actuais gerações da nossa terra e não só. Portugal inteiro (e por que não dizê-lo?) e a civilização de que somos parte integrante também têm o direito de conhecer o nosso riquíssimo passado etnográfico. E dizemos riquíssimo porque foi mesclado por culturas populares diversas que lhe emprestaram um sabor distinto que urge divulgar com coragem e tenacidade.
E aqui cabe bem uma palavra muito especial aos inúmeros licenciados em Português da nossa terra, no sentido de se debruçarem com entusiasmo sobre esta ciência da descoberta do passado de um povo, tornando visível às gentes de hoje os alicerces da maneira de ser, estar e falar dos gafanhões, vivam eles em qualquer das Gafanhas, mas perfeitamente identificados por um passado comum.
No meio da vida, quantas vezes sem sentido, de tantas pessoas, adultas e jovens, todos aqui temos um manancial de temas escondidos em arcas e sótãos, mas também na memória de muitos dos nossos avós, para escoldrinharmos e trazermos à luz do dia, que o mesmo é dizer, à cultura dos tempos de hoje, que são os nossos tempos. E porque o futuro se constrói com exemplos e achegas do passado e do presente, resta-nos esperar que, deste colóquio, saiam entusiasmos por esta riqueza que é pertença dos presentes, se não for esquecida, mas que queremos constituam o orgulho dos que vierem depois de nós. É por isso que aqui estamos.
FIM
Artigo da autoria do Prof. Fernando Martins e publicado no Livro do XV Festival, realizado em 10 de Julho de 1999.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

As mulheres da Gafanha (parte IV)

Diz Maria Lamas, entre outras considerações, que desempenhava o seu cargo “com firmeza” e que se distinguia das suas subordinadas pelo aspecto, “porque se veste e penteia de maneira mais apurada”. No entanto, “conserva o ar desembaraçado e decidido que caracteriza as mulheres do povo daquela região”. E adianta: “O que interessa especialmente neste caso é o facto de ela ter conseguido, pelas suas qualidades de trabalho e disciplina, ascender ao lugar de encarregada, com enormes responsabilidades, numa empresa importante.” Noutra passagem do livro, canta um hino a estas mulheres, cujas histórias decerto muito a sensibilizaram, hino esse que aqui transcrevemos: “Mulheres da Gafanha, à hora em que vão levar o almoço aos homens que trabalham nos estaleiros. A vida duríssima que levam, naquelas terras que outrora foram dunas batidas rijamente pelo mar e que são hoje solo fertilíssimo devido ao seu labor constante, marca-lhes as feições e dá-lhes um todo viril, decidido, forte. Nenhuma tarefa as faz recuar. São, quase todas, mulheres de pescadores de bacalhau ou de operários, e elas próprias trabalham no que se lhes proporciona, quando não é preciso sachar o milho ou colher a batata, muito abundante ali. A sua existência passa-se em permanentes fadigas e sobressaltos. Usam uma linguagem desabrida, que chega a ser chocante, porque se habituaram a encarar a vida e as pessoas de forma hostil, à força de lutar e sofrer de muitos modos. Tudo se resume, porém, a um desabafo, tão natural, para elas, como respirar, rir ou falar. Bravas mulheres, as da Gafanha! No fundo, todas as mulheres do povo se parecem umas com as outras, vivam onde viverem. Pode variar o aspecto exterior, mas a sua natureza é a mesma. Mais ou menos rudes, conforme o seu nível de vida, todas são irmãs na luta, na resistência ao trabalho e ao sofrimento, no heroísmo obscuro com que suportam o peso de uma existência sujeita às suas inclemências. Instintivas e directas, na sua maneira de encarar as realidades, não podem ser julgadas apenas pelo que fazem e dizem. A força que as impele tem raízes fundas, na terra e na própria vida.” Mais adiante, tece algumas considerações sobre as raparigas da Gafanha, sublinhando: “Estas jovens do povo parece que se vão distanciando, no trajar e nos gostos, das suas mães. Trabalham na terra, quando a faina da seca termina, mas quando vão à cidade apresentam-se vestidas como se lá vivessem. Gostam de ir ao cinema, se têm ocasião para isso; discutem o ‘que se usa’; são raras, porém, as que mostram interesse pela leitura. Casam, quase sempre, com operários dos estaleiros ou pescadores de bacalhau. Depois de casadas perdem muito da sua vivacidade e até o gosto na sua pessoa – a não ser uma ou outra de personalidade mais definida. A pouco e pouco vão seguindo o caminho das outras mulheres que, antes delas, foram novas, engraçadas e um tanto rebeldes contra o pensar das mães. Insensivelmente, adaptam-se à vida sacrificada, em que tudo é trabalho, sobressaltos e luta pelo pão. Mesmo quando conseguem certo desafogo económico, o espírito mantém-se-lhes embotado e alheio ao progresso do Mundo, fora dos seus interesses pessoais e imediatos.”
Fim
Artigo da autoria do Prof. Fernando Martins e publicado no Livro do XX Festival, realizado em 10 de Julho de 2004.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Federação do Folclore Português reune em Assembleia

Os coordenadores dos Conselhos Técnicos Regionais da Federação do Folclore Português foram chamados a reunir em assembleia que decorreu nos dias 7 e 8 de Novembro, no Centro Social Paroquial de Recardães (Águeda), numa organização do Conselho Técnico Nacional da Federação do Folclore Português. Agilizar estratégias com vista a disciplinar o movimento folclórico inserido no seio da Federação foi o propósito da reunião que juntou cerca de 70 conselheiros. Preparar a redacção do guião de trabalho e afinar pontos de vista e de acção, foi o propósito da reunião, pautada pelo espírito da melhor cooperação.
Antes, Fernando Ferreira, presidente da Federação, procedeu à entrega de diplomas a novos conselheiros, eleitos para reforçar alguns núcleos regionais (zonas Vareira, Estremadura Centro-Saloia e Templários) ou preencher outros que estavam sem conselheiros, como foi o caso do núcleo do Alto Minho.
Antes da ordem de trabalhos, Fernando Ferreira salientou uma vez mais o objectivo da acção que vai seguir-se de imediato e que passa por uma tentativa de “melhorar a imagem dos grupos federados” e apelou ao “melhor relacionamento com os responsáveis dos grupos”, recomendando a “uma análise prudente e cautelosa” dos pormenores em avaliação. O dirigente anunciou que irá ser criado um suporte informático por forma a que todos os elementos se preservem e se encontrem de fácil consulta. Oportunidade ainda para lamentar a inactividade de alguns Conselhos Técnicos, que não estão a corresponder às expectativas criadas. “alguns conselheiros coordenadores nem sequer respondem às solicitações da Federação; podemos entender que não trabalham ou optam pelo silêncio, o que é desencorajador”, queixou-se o presidente, lembrando que aos “conselheiros que não trabalham será melhor não os ter. A estrutura de Federação assenta nos Conselhos Técnicos e se não há trabalho nem cooperação, melhor será abandonarem”, aconselhou.
Antes do arranque dos trabalhos, Fernando Ferreira desejou que o encontro de conselheiros se traduza “numa acção bastante interactiva e muito discutida, mesmo que as opiniões sejam divergentes. Que cada um saia daqui o mais esclarecido possível”.
O conjunto dos conselheiros foi subdividido por regiões etnográficas e instalados em salas diferentes, para melhor discutirem e aprofundarem os diversos pontos do guião do plano de trabalho e que terá depois uma redacção uniformizada de acordo com as sugestões apresentadas. Cada grupo foi liderado por um dirigente da Federação.
“Harmonizar procedimentos e reunir pontos de vista para um cruzamento de ideias e opiniões por forma que todos possamos falar a uma só voz”, relembrou o Eng.º Manuel Farias, mentor do projecto do Guião do Plano de Melhoria. A acção junto dos grupos vai seguir-se de imediato.
(Continua)
Na foto pode observar-se a presença do Director Técnico do Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré, Acácio Nunes, conselheiro técnico da Federação do Folclore Português.
Texto retirado do Jornal de Folclore nº166, de Dezembro de 2009, assinado por Manuel João Barbosa.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Jantar de Natal 2009











sábado, 12 de dezembro de 2009

Boas Festas e Feliz Ano Novo

A Direcção do Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré deseja a todos os seus associados e amigos e respectivas famílias um Santo Natal e um Próspero Ano de 2013.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Vida e costumes dos pescadores (parte III)

O Palheiro, habitação característica do pescador que ainda predomina na região da beira-mar, é construído exclusivamente de tábuas de "pinheiro" e, à guisa das habitações lacustres, assente sobre grossa estacaria enterrada na areia, apoiada em lastro de pedra e circundada de sal para evitar-lhe o apodrecimento. Deixa assim passagem livre às águas, quando o alcançam e, por outro lado, impede que o palheiro fique soterrado naquele terreno movediço.

O tipo de construção varia ente 3 a 8 metros de frente por 4 a 6 de fundo; a altura regula por 3 ou 5 metros que correspondem, respectivamente, a um ou dois pisos, com cobertura de telha vã.

Interiormente, um ou dois compartimentos servidos por uma só porta e uma ou outra janela de reduzidas dimensões.

Estes palheiros, que chegam a formar espaçosos arruamentos, na sua maioria, são propriedade dos pescadores, alguns há que possuem outros de melhor condição que alugam a banhistas na época própria. Os que não têm palheiro próprio, tomam-no de aluguer para o período da safra; terminado esse período, todos os pescadores geralmente regressam à sua habitação no interior das povoações a que pertencem.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

A pesca à linha (II)

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Natal de antigamente

"Quando era menina
não havia Pai Natal nem Árvore de Natal.
Armava-se o presépio com chão de musgo
rochas de cortiça virgem ervas a valer
pedrinhas de verdade
e searinhas que se semeavam em pires e latas vazias
no dia 8 de Dezembro
e eram o pequeno milagre o primeiro
a despontar dos grãos de trigo e a crescer todos os dias.
As criaturas do presépio eram de compra
mas também moldei algumas em barro fresco.
Uma vez uma das minhas tias fez casas e igreijinhas de papel
e acendemos velas lá dentro.
Foi um deslumbramento a luz a sair pelas janelinhas!
Mas ardeu tudo de repente.
Desde então só a lamparina de azeite continuou a alumiar
esse parco mundo pobre.
No meu Natal de antigamente havia menos presentes.
Os meninos não exigiam esses brinquedos extrabíblicos:
computadores, jogos de computadores, cêdêroms, sei lá.
Nem o Menino Jesus podia com tanto peso!
Sim, porque no meu Natal de antigamente era o Menino Jesus
quem dava as prendas.
Púnhamos, na véspera, o sapatinho na chaminé
mas tínhamos que ir para a cama esperar pela manhã
porque Ele só descia pela calada da noite
se ninguém estivesse à espreita
(hoje o Pai Natal não tem esses pudores).
Eu imaginava-o a saltar das palhinhas
nuzinho em pêlo
e a Nossa Senhora a agasalhá-Lo logo com a sua capa.
E lá ia Ele
como um menino pobre enrolado no casaco do pai
a contentar todas as crianças do mundo.
O Pai Natal, esse, foi encarregado (não sei por quem)
de dar presentes a pequenos e grandes.
Com o Menino Jesus tudo ficava entre meninos.
E se a prenda não agradava
a gente fazia-lhe uma careta
e até, à socapa, chamava-lhe um nome feio.
O Pai Natal é um palhaço cheio de postiços:
barba bigode cabeleira
até a barriga é uma almofadinha.
E vai à televisão convencer-nos a comprar coisas.
Agora o Natal antecipa o Carnaval.
O Menino Jesus, esse não! nunca ia à televisão
(que para dizer a verdade não existia ainda.)
Mas que menino de hoje trocaria o seu Pai Natal
(gerente de um supermercado de prendas)
pelo meu Menino Jesus
a tiritar nas palhas?
"Teresa Rita Lopes, Afectos,
Lisboa, Editorial Presença, 2000

O linguajar dos gafanhões (parte IV)

Diz o Padre Resende, na sua célebre e ainda utilíssima Monografia da Gafanha, que “Dos povos da Gafanha diremos que o seu primitivo estado de primários, numa região separada do convívio dos povos mais adiantados, manteve-os por muito tempo numa rudez bastante confrangedora. Quase se podia dizer que mal sabiam falar. Com o tempo e com as vias de comunicação, foram-se polindo, civilizando, começando-se a operar uma grande transformação no seu rude e bárbaro vocabulário, quer na sua forma morfológica, quer na sua parte fonética”. E destaca, como exemplo, algumas palavras e expressões, de que respigamos as que mais lembramos:
Xintro — Jacinto
Balisome — Lobisomem
Manel — Manuel
Sóte — Sótão
Atóino — António
Maçazeira — Macieira
Stâmago — Estômago
P’dibe — Pevide
Azête — Azeite
Capador — Alveitar
Pruga — Purga
Lambisgóia e delambida — Atrevida
Alfanete — Alfinete
Curesma — Quaresma
Arbela — Alvéola
Puchi-na — Puxei-a
Arribar — Subir
Fostas — Fostes
Vais à festa? — Resposta: ai não! (= vou)
Ó Maria, vais à fonte?— Resposta: Poi xim! (=não vou)
Maria vai arrumar-se = Maria vai casar-se
Bou marcar palhitos = vou comprar fósforos
Anda a comprar = Está grávida
Tem os pés inchados = Está embriagado
Tens a língua grande = falas de mais
É preciso falar com relego e dar um pontinho na língua = Falar só o preciso.”
De realçar que os gafanhões não pronunciavam, como ainda não pronunciam, o v. Toda a palavra que tenha v se pronuncia com b. Daí, por exemplo, “Bou a Abeiro ou a Ílhabo comprar uma baca e benho logo para casa que a bida espera por mim”.
E muitas outras palavras e expressões poderíamos continuar a citar, acrescentando-lhes mais algumas que a nossa memória retém com alguma fidelidade. Mas hoje ficamos por aqui, que se faz tarde, como diriam os nossos avós.
Antes, porém, de terminar, é justo recriar um ou outro quadro, para exemplificação:
Estou a ver os homens baixos e magros de camiseta e de ceroulas compridas, de flanela, estas com atilhos amarrados nas canelas, barba por fazer (só se fazia aos sábados, no barbeiro), boné ou chapéu na cabeça, mãos gretadas pelo trabalho duro, descalços, rosto envelhecido, queimado pelo vento e pelo sol impiedosos, força de vontade férrea, poupados, com gosto pelo trabalho e pela solidariedade tantas vezes manifestada, religiosos sem beatices, amigos dos seus amigos. As mulheres baixas e de pernas grossas, sem cintura e sem pescoço, olhos ingénuos, de chapéu de palha na cabeça por cima de um lenço que amarrava sobre o chapéu, roupas escuras, excepto ao domingo, em que se abusava da cor garrida, sobretudo as das secas do bacalhau, pernas com canudos (meias sem pés) enfiados para o sol não as queimar, que era fino tê-las brancas, descalças, mãos gastas pelo trabalhos, tranças na cabeça, porque permanentes eram para as da cidade, religiosas sem exageros, amantes do trabalho e poupadas, solidárias e amigas das suas amigas.
Mas a maneira de falar, um tanto ou quanto cantada, com alguma malícia pelo meio, entre risadas contagiantes, é que me encantava.
Levemos a nossa memória até lá atrás e ouçamos a Ti Maria e o Ti Atóino. Vinha ela desaustinada (sem tino) porque a canalha lhe estragara as batatas ali ao pé da escola da Tia Zefa. Estava arrenegada (zangada).
O ti Atóino vinha da borda, onde andara ao moliço para o aido. Antes da maré, porém, deitara-se a descansar, com o corpo moído, na proa da bateira que ia à rola (à deriva). Sem saber como, e com uma nassa, apanhou uns peixitos para a ceia (o jantar de hoje). Já não era mau. Naquele dia não comeriam caldo de feijão com toucinho, com um bocado de boroa. Sempre seria melhor.
— Então queras (queres) ver, Atóino, o que a canalha (os garotos) da escola fez? Andou por riba (cima) das batatas a achar (à procura de) a bola e ‘stragaram-me tudo. Tamém (também) andaram à carreira (a correr velozmente) atrás uns dos oitros (outros) a amandar (mandar, atirar) pedras e a acaçar ( caçar, ao agarra). Se andassem com relego (com moderação), ainda vá que não vá. Mas não. Andavam a toda a brida ( à desfilada, a toda a força), como que a atiçar (meter-se) comigo. E se calhar a professora estava abuzacada (refastelada) na sala. Isto está mal, não achas?
— Pois é verdade, Ti Maria. Não são coisas que se façam. Anda um home (homem) a gastar dinheiro em batatas e buano (guano), muitas vezes sem se astrever ( atrever, poder) e estes mariolas (marotos), num’stante (instante) deixam tudo ‘struído. Era só a gente atirar-lhe com um balde de auga (água), para eles aprenderem. São a mode (como que) tolinhos e alonsas (parvos). Mariolas! (marotos). Vossemecê já falou com a professora? Se ainda não, vá lá e diga-lhe que ó despois (depois) não se arresponsabiliza (responsabiliza). São uns desalservados (cabeças no ar), uns desintoados (desentoados, disparatados).
— Tens razão, Atóino. Vou lá num‘stante (instante), antes que seja tarde. Amanhê (amanhã) tamém (também) falo com os pais. Sempre são homes (homens) e melheres (mulheres) pra (para) darem uns estrincões (apertões com os dedos em zonas sensíveis) aos miúdos, pra (para) eles aprenderem. Opois (depois) que não se queixem.
(Continua)
Artigo da autoria do Prof. Fernando Martins e publicado no Livro do XV Festival, realizado em 10 de Julho de 1999.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

As mulheres da Gafanha (parte III)

Também, de uma forma geral, todas aproveitam algumas horas que lhes fiquem livres para ajudar na modesta faina agrícola da família, seja regar o milho, ir ao mato e à lenha ou tratar dos animais. “A sua vantagem não está no aligeiramento das tarefas, mas sim na mudança do ambiente, na variedade dos assuntos que lhes prendem a atenção e no convívio com as companheiras.” Assim – sublinha Maria Lamas –, as mulheres das secas do bacalhau são “desembaraçadas, faladoras e alegres, como se a vida lhes não pesasse. Em conjunto, nas horas de plena actividade, cantando em coro ou simplesmente escutando os programas de rádio, que um amplificador de som leva a todos os recantos das instalações onde trabalham [EPA – Empresa de Pesca de Aveiro], elas constituem um quadro pleno de vitalidade e optimismo”. Refere, depois, o que é o trabalho árduo destas mulheres, desde descarregar, lavar, salgar e levar o bacalhau, todos os dias, para as “mesas” da seca, para depois, mais tarde, empilhar, seleccionar e enfardar. Diz que elas andavam muitas vezes descalças, “apesar do perigo constante de se ferirem, com as espinhas e barbatanas que se encontram espalhadas pelo chão”. E acrescenta que uma ou outra consegue arranjar botas de borracha, “presente do irmão ou noivo que foi aos bancos da Terra Nova”, sublinhando que estas “são consideradas, pelas colegas, como privilegiadas”. “Há ainda aquelas que improvisam uma espécie de sandálias de madeira, amarrando uma ‘sola’ ao pé, com farrapos. São também raras excepções. A regra comum é o pé descalço, porque nenhum calçado duraria tempo que valesse a pena, além de que, não sendo impermeável, nem sequer evitaria que os pés estivessem sempre molhados”, pode ler-se no texto que estamos a seguir e do qual transcrevemos as partes mais significativas, na nossa óptica. Depois frisa os canos, que mais não eram do que “meias sem pés”, os baixos salários, “doze a quinze escudos diários”, e apresenta a mulher que as dirige, a Senhora Júlia, que os gafanhões mais antigos bem recordam.
(Continua)
Artigo da autoria do Prof. Fernando Martins e publicado no Livro do XX Festival, realizado em 10 de Julho de 2004.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Jantar de Natal

No próximo sábado, dia 12 de Dezembro, pelas 20 horas, num restaurante da nossa cidade, irá realizar-se o tradicional jantar de Natal do Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré. Aos membros do direcção do grupo, cantadores, músicos, dançarinos e dançarinas juntam-se outros sócios e amigos para celebrar a época natalícia e comemorar mais um ano de muita actividade. Teremos também a presença dos nossos autarcas que tanto apoio nos têm dado e com os quais estabelecemos uma parceria que tantos e tão bons frutos tem dado, em prol da cultura do Concelho de Ílhavo.

As salinas da Ria de Aveiro

Exposição de fotografias sobre as salinas de Aveiro, na sequência de um trabalho para o Jornal de Noticias. Imagens de Jaimanuel Freire.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Vida e costumes dos pescadores (parte II)

São considerados "extraordinários", para o efeito de remuneração suplementar, quanto aos pescadores, os serviços de Caneiro ou Revezeiro e Metedor, e em relação aos auxiliares, os serviços de encascar e alcatroar a rede; vigiá-la de noite; colher as calas, acarretar madeira e chamar o pessoal. Este último serviço é realizado, umas vezes, por meio de som repetido e prolongado de um "búzio"; noutras, especialmente de dia, servem-se do pendão, grande cilindro de rede, alcatroada, de irregulares dimensões, que arvoram num mastro localizado próximo do palheiro da respectiva companha. Para chamar o gado, usam também, içar um segundo pendão. Estes processos quando se verificam, dispensam, necessariamente, o serviço directo dos chamadores.
Cada uma destas companhas possui, geralmente, uma embarcação e um palheiro com os aparelhos e utensílios indispensáveis ao exercício da sua indústria, conquanto algumas , por melhoria de posição económica, disponham efectivamente de mais embarcações e correspondente aparelhagem.
De uma maneira geral a alimentação do pescador não tem horário regular e resume-se a broa de milho, caldo de unto ou de legumes, sardinha e vinho; a sua condição raras vezes lhe permite excepções. A mulher, em regra, é quem administra o casal, mas ajuda também trabalhando na salga da sardinha, na venda do peixe fresco e, algumas vezes, no conserto de redes.
A "Casa dos Pescadores", recentemente criada por decreto-lei, veio trazer à sua vida árdua e arriscada um princípio de bem merecida protecção e assistência, na medida do possível em que concorre para o conforto dessa pobre gente de alma admirável que Raúl Brandão, melhor do que ninguém, -que eu saiba, -tão justamente soube apreciar.
Não há muito o confirmou também o ilustre Governador Civil do Distrito de Aveiro Sr. Dr. Almeida Azevedo, acrescentando não constar dos anais da criminalidade nos últimos 50 anos, qualquer delito por eles cometido.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

A pesca à linha (I)

O linguajar dos gafanhões (parte III)

O seu linguajar é, portanto, filho de todas essas circunstâncias e resulta, vezes sem conta, da corruptela de vocábulos e expressões ouvidas das pessoas com quem contactavam, sem acesso a literatura ou a meios de comunicação social, embora na região já houvesse jornais e em algumas casas, muito poucas, um ou outro aparelho de rádio. Estamos a recordar as cerimónias de Fátima, sobretudo no dia 13 de Maio, participadas em casa de um abastado lavrador. Todos sentado no chão da sala, lá íamos ouvindo a transmissão com o dono do aparelho a acertar de quando em vez a sintonia. Era o que havia na nossa já distante meninice, que recordamos com imensa saudade pelo bucolismo que a envolvia.
Também não podemos esquecer os gafanhões que, nos finais do século XIX e princípios do século XX, aprendiam a ler pouco mais que o “b à bá” em casa de mestres populares, alguns dos quais deixaram marcas que o tempo não apagou. À hora da sesta, no Verão, ou ao serão, no Inverno, os mais atrevidos pelas coisas do saber e da cultura lá sacrificavam horas de descanso, no meio ou ao fim de um dia de trabalho duro, para aprenderem as primeiras letras na Cartilha Maternal de João de Deus, ou letras grossas que vinham da arte natural dos senhores mestres, os “sábios” da aldeia que liam e interpretavam, para quem necessitasse ou os quisesse ouvir, os editais afixados às portas das igrejas ou as notificações dos Tribunais, das Finanças ou militares. E era esta leitura periclitante, aprendida em tempos de lazer, embora poucos e nem sempre frequentes, que facilitava, a alguns, a interpretação de livros de devoção popular, os romances célebres, para raros leitores, de certos clássicos, sem esquecer a literatura de cordel, carregada de dramas passionais e de aberrações da natureza, que era vendida de feira em feira ou de romaria em romaria, por cantadores e cantadeiras que sabiam pôr angústia contagiante em tudo o cantavam. E a propósito, como seria interessante fazer um levantamento dessa literatura de cantar e de ler, e que passava de boca em boca, que os nossos avós tanto apreciavam e que deve andar perdida por alguma arca já carcomida pelo caruncho. Também nos alfarrabistas dos grandes centros ela deve ser procurada, ou, ainda, na memória dos nossos velhinhos mais dados a reterem as coisas do passado, como que a quererem ficar perpetuamente agarrados à sua meninice e juventude.
(Continua)
Artigo da autoria do Prof. Fernando Martins e publicado no Livro do XV Festival, realizado em 10 de Julho de 1999.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

As mulheres da Gafanha (parte II)


“A seca do bacalhau na Gafanha emprega muitas centenas de mulheres, durante parte do ano, havendo secas onde o trabalho é permanente, porque abrange duas campanhas, a dos lugres e a dos arrastões. “Na referência a esta actividade feminina focaremos em especial a Gafanha, visto ser ali que ela atinge o maior desenvolvimento, como é também ali que existem as mais importantes secas do bacalhau de todo o País.” Assim escreve Maria Lamas, que acrescenta: “Pelos costumes e ambiente em que vivem e ainda porque tanto se entregam à lavoura como à faina da seca ou qualquer outra que se lhes proporcione, elas conservam, sob certos aspectos, a mentalidade da mulher do campo; mas a disciplina das tarefas realizadas em comum ou distribuídas numa coordenação de actividades, o sentido das responsabilidade, os horários fixos e ainda o contacto com outras realidades directamente ligadas ao seu próprio esforço vão-lhes dando uma noção diferente da vida e criando consciência da importância do seu labor.” A escritora que andou pela nossa região recorda a maneira de viver das mulheres da Gafanha, com a sua “ignorância”, o conceito de “fatalismo, a que subordinam o seu destino”, mas também o instinto de “defesa dos seus interesses”, tornando-as “solidárias”. E sublinha: “No vestuário revelam maior cuidado na limpeza do que as camponesas, que saltam da enxerga, estremunhadas, antes do luzir do dia, e lá vão, para a labuta sem fim, indiferentes à água, ao sabão, ao pente... “Não se imagine, porém, que as mulheres do povo, naquelas circunstâncias, têm uma vida mais leve e fácil, em relação às suas irmãs que permanecem em contacto permanente com a terra. Com muito poucas excepções, elas fazem longos percursos, de manhã e à tarde, porque moram longe do local onde trabalham.
(Continua)
Artigo da autoria do Prof. Fernando Martins e publicado no Livro do XX Festival, realizado em 10 de Julho de 2004.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Vida e costumes dos pescadores (parte I)

A vida do pescador está, por assim dizer, concretizada nas companhas, espécie de sociedades organizadas para a indústria da pesca e compreendidas em duas classes.
Numa delas, em que há sócios, ou patrões, que financiam e dirigem a safra, o pescador é simplesmente assalariado e recebe, além do salário, certa porção do peixe a que chamam caldeirada, e uma percentagem sobre o apuro bruto da pesca; pertencem a esta classe as que se constituem para a pesca da sardinha, com a "Arte de Xávega". Quase sempre os patrões assistem a toda a faina, colaborando nos serviços de terra, ou incutindo ânimo aos remadores sempre que acompanham o lanço.
Na outra, que abrange as restantes artes e se compõe, apenas, de pescadores em número variável, a retribuição de serviços faz-se por meio de quinhões do peixe capturado, em partes iguais a cada qual, retirado um terço, ou dois, da pescaria para as despesas da embarcação e do respectivo aparelho.
Nas companhas sa sardinha, o pessoal contratado subdivide-se em dois grupos que se designam por homens do mar e homens de terra, respectivamente pescadores e auxiliares.
Aos primeiros somente incumbe conduzir a rede para o barco e tripulá-lo; aos últimos cabe largar e arribar o barco; preparar a alagem das redes e chamar o gado necessário; estender a rede para secagem e vigiá-la, se esse serviço tiver lugar de noite; repará-la e recolhe-la depois no palheiro; encascar e alcatroar a mesma; colher os cabos de alagem e conduzi-los em seguida; dispor os roletes e varais para a largada ou arribação do barco, e, finalmente chamar o pessoal para os lanços.
Continua

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

O linguajar dos gafanhões (parte II)

Linguajar alegre por entre cantigas da época e da tradição popular a desmantar o milho, a fabricar adobos nas dunas junto à mata e depois na construção solidária das casas modestas, na apanha do tremoço, nas novenas que boas almas organizavam para pagar promessas, nas festas e romarias da região, sempre alimentadas pelo espírito de convivência dos gafanhões. De tudo, restam na nossa memória cenas do quotidiano desta gente humilde, mas determinada, que fez as Gafanhas dos nossos dias, o orgulho dos que hoje, vindos de perto e de longe, de quase todo o Portugal, incluindo regiões autónomas e, ainda, dos actuais países de expressão oficial portuguesa, fazem parte integrante dos povos desta península da Gafanha. E todos estes, com a sua maneira de falar e de dizer o essencial do dia-a-dia, de cantar e de rir, de trabalhar e de viver, deram um pouco de si aos povos autóctones, num entrosamento muito feliz.

Mas hoje e aqui, onde nos apetecia continuar a recordar coisas de antanho que vivemos, vamos falar do linguajar destes povos, marcados, e de que maneira, pela vida agreste que as nortadas ainda mais agreste tornavam. Não se trata de uma língua propriamente dita, muito menos de um dialecto, mas única e simplesmente do modo de falar de um povo em que, ainda há meio século, predominava um grande analfabetismo. As meninas não iam obrigatoriamente à escola, e entre os rapazes muitos se esquivavam. E quando não se esquivavam, cedo perdiam o contacto com as letras, porque o trabalho, mesmo em meninos, os absorvia, quer nas tarefas agrícolas e nas marinhas de sal, quer na construção civil, na pesca e na ria. E ainda em indústrias então nascentes, tanto nas Gafanhas, como no concelho de Ílhavo e em Aveiro. A emigração também começou a marcar a nossa gente, e de que maneira, disso ficando rastos de hábitos de vida diferenciados, casas que nada têm a ver com a nossa identidade geográfica e humana, e o espírito de aventura e a determinação que perduram na juventude de hoje!
Artigo da autoria do Prof. Fernando Martins e publicado no Livro do XV Festival, realizado em 10 de Julho de 1999.

domingo, 22 de novembro de 2009

Convocatória

Maria da Ascensão Vilarinho Pata Farinha, presidente da Assembleia Geral do Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré, vem por este meio e no cumprimento do disposto no nº 2, alínea B) do Artigo 22º do Regulamento Interno desta Associação, convocar os associados para uma Assembleia Geral Ordinária, a ter lugar no dia 13 de Dezembro, pelas 20:00 horas , na sede desta Associação, sita na Rua Cooperativa Humanitária, nº 11, na cidade da Gafanha da Nazaré, com a seguinte ordem de trabalhos:
1- Leitura da Acta anterior,
2 - Discussão e votação do Plano de Actividades para o ano de 2010,
3 - Votação do Orçamento de Despesas para o ano de 2010,
4 - Votação do Orçamento de Receitas para o ano de 2010,
5 - Outros assuntos de interesse para a Associação.
No caso de à hora marcada para o início desta Assembleia Geral, não estarem presentes o número mínimo legal de Associados, será a mesma suspensa e na mesma data, local e com a mesma ordem de trabalhos, funcionará passados 30 minutos, com qualquer número de Associados presentes (Alínea 2 do Artigo 25º do Regulamento Interno).

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

As mulheres da Gafanha (parte I)

As mulheres da Gafanha merecem um estudo profundo sobre o seu papel na construção das povoações e das comunidades desta região banhada pela Ria de Aveiro. É certo que alguns estudiosos e escritores de renome já se debruçaram sobre elas, cantando loas à sua tenacidade e coragem, mas também ao seu esforço, desde sempre indispensáveis na luta de transformação de areias improdutivas em solo ubérrimo. Há décadas, e é sobre essas mulheres que nos debruçamos, elas eram as mães solícitas e amorosas dos filhos, mas também os “pais” que garantiam o sustento da casa, enquanto os maridos se aventuravam nas ondas do mar na busca de mais algum dinheiro que escasseava em terra. Em jeito de desafio a quantos podem e devem, pelos seus estudos e graus académicos, retratar as nossas avós, com rigor histórico, já que, hoje e aqui, não há lugar nem tempo para isso, apenas indicamos algumas pistas, que há mais de 50 anos nos foram oferecidas por Maria Lamas, na célebre obra “As mulheres do meu país”, que viu há tempos a luz do dia em 2ª edição, numa iniciativa da “CAMINHO”, e que tão esquecida tem andado.
Na década de quarenta do século passado, Maria Lamas, que faleceu em 1983, com a bonita idade de 90 anos, andou pelas Gafanhas, mais concretamente pela Gafanha da Nazaré, olhando, conversando, retratando e estudando as nossas avós. “O esforço da mulher na labuta comum e a sua influência no desenvolvimento da Gafanha são apontados, em toda a região de Aveiro, como um exemplo admirável”, afirma a escritora, depois de se referir, a traços rápidos, à localização da região que estudava, e de citar as areias e os ventos, as marés e a vegetação, as batatas e os cereais, as salineiras e as pescadeiras, as trabalhadoras das secas do bacalhau. E foram, sobretudo estas, as mulheres das secas, as que mais a entusiasmaram, ou não fossem elas o exemplo claro da camponesa e da operária na mesma pessoa.
Artigo da autoria do Prof. Fernando e publicado no Livro do XX Festival, realizado no dia 10 de Julho de 2004.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Farol da Barra de Aveiro (parte III)

Os trabalhos não foram tão céleres quanto seria de desejar, o que levou o ilustre parlamentar José Estevão a pedir ao Governo, em 4 de Julho de 1862, na Câmara dos Deputados, a construção de um farol na nossa costa. No ano seguinte, em 15 de Setembro, a Câmara Municipal de Aveiro apresentou a el-rei D. Luís uma exposição, requerendo a edificação de um farol ao sul da barra.
Para justificar a sua petição, a autarquia aveirense recorda que importa "evitar os naufrágios que tão frequentes se têm tornado nestes últimos tempos, no extenso litoral entre o Cabo Mondego e a Foz do Douro". E acrescenta: "Ninguém pode duvidar, Senhor, que numa costa tão extensa como acidentada, em que as restingas ou cabedelos se formam pela a violência das correntes, cuja direcção varia diariamente, um farol evita que os navios, se singram próximo de terra, se enganem no rumo, vencendo as dificuldades da navegação sem correrem o risco de naufragar nos bancos de areia, às vezes em noites bonançosas, como infelizmente tem sucedido entre nós."
A resposta do Governo não tardou. No dia 26 de Setembro de 1863, uma portaria governamental ordena que se fizesse o projecto e o orçamento. O projecto foi concluído em 5 de Abril de 1884 e os trabalhos da construção iniciaram-se em Março de 1885.
A inauguração oficial do farol aconteceu em 31 de Agosto de 1893.
FIM
Artigo da autoria do Prof. Fernando Martins e publicado no Livro do XXII Festival, realizado em 8 de Julho de 2006.

sábado, 14 de novembro de 2009

O Baptismo na Gafanha - 3

A prevenir estes perigos, há necessidade de colocar durante a noite sobre a criança as calças do pai, com a perneira esquerda desvirada e de dia e de noite dependurar umas tesouras abertas junto à cama.
São desnecessárias estas precauções quando os meninos já não são pagões.
A criança não é lavada no dia do baptismo e após ele por respeito à água baptismal.
Eis como as mães embalam os filhos.
………….
Nana, nana, meu menino,
C’a tua mãe logo bem:
Foi labá-las fraldinhas
Á fonte de Belém.

O mê menino é d’oiro,
D’oiro é mê menino;
Hê-de entregá-lo ós anjos
Incanto é pequenino.

Vai-te embora, papão negro,
De cima de mê telhado;
Deixa dormir o menino
Um soninho descansado.

Quem tem o nome de mãe
Nunca passa sem cantar;
Cantas vezes a mãe canta
Com vontade de chorar.

In “Monografia da Gafanha “ do Padre João Vieira Resende.

Boas leituras

Rubem da Rocha

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

O linguajar dos gafanhões (parte I)

Retrocedendo no tempo, qualquer coisa como meio século, tanto quanto é necessário para chegar à nossa infância, vislumbramos na memória, qual retrato ainda não embaciado pela pátina do tempo, os gafanhões que ajudaram a erguer esta terra, marcada à nascença por uma mistura de povos na sua maioria semianalfabetos ou mesmo analfabetos, sob o ponto de vista académico, sobretudo, mas obstinados no seu querer. De vontade indómita, trabalharam a terra, primeiro, coisa que sabiam fazer como poucos, ou não estivessem eles habituados a lavrar e a cavar areias movediças e esbranquiçadas, que pouco lhes oferecia de volta, e aventuraram-se na ria e no mar, depois, numa ânsia desmedida de irem mais além. E nessa labuta diária, que deixou marcas indeléveis no temperamento e no carácter dos gafanhões , doaram-nos uma cultura de que hoje nos orgulhamos, nós, os que presentemente somos os legítimos herdeiros desses cabouqueiros das Gafanhas que se deixam beijar pela ria e pelo mar, com ternura, e que depois partem à procura de novos mundos.
Cultura essa que tem sido, desde a primeira hora, no já distante século XVII, e até aos nossos dias, mesclada de outros saberes e dizeres vindos um pouco de todo o país, dando-lhe um sabor que se vai perdendo no tempo. Hoje, com a evolução do ensino e com a influência dos diversos meios de comunicação social, e também graças ao contacto com povos de todo o mundo, que a vida do mar proporciona, os gafanhões já falam mais escorreitamente, de maneira bem diferente, por exemplo, dos tempos da nossa meninice, da década de 40, a que estamos a conduzir a memória já gasta pelos anos, é certo, mas felizmente lúcida para ouvir o linguajar cantado do nosso povo, nas fainas da ria e do mar, e principalmente nas tarefas do campo, por onde brinquei por cima de restolhos com bolas de trapos, entre searas ao escondedouro, na estrada aos "calarotes", aos ninhos na mata da Gafanha que pouco depois via nascer a Colónia Agrícola, na borda à pesca da macaca, do caranguejo e de algum perdido robalito.
(Continua)
Artigo da autoria do Prof. Fernando Martins e publicado no Livro do XV Festival de Folclore, realizado em 10 de Julho de 1999.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Grupo Folclórico de Vila Verde



Para todos aqueles que gostam de Folclore, iniciamos hoje a apresentação de alguns bons Grupos ou Ranchos Folclórico ou Etnográficos, representativos das várias regiões de Portugal. Espero que gostem.

O Grupo Folclórico de Vila Verde foi fundado em 1958 com o intuito de divulgar e preservar as tradições Etno-Folclóricas deste Concelho que representa, constituído por 58 freguesias predominantemente agrícolas, assim como a região do Baixo Minho, onde se encontra inserido, sendo o mais antigo e representativo Grupo Folclórico do Concelho e um dos mais antigos da região e do país.
Tem participado em todo o país em diversos, variados e mais importantes Festivais de Folclore, de Norte a Sul, inclusive na Região Autónoma da Madeira, e ainda na EXPO 98; e, no estrangeiro, várias vezes em Espanha, incluindo as Ilhas Canárias, França e Alemanha, e também na Itália, Áustria e Eslováquia.

Dentro das suas actividades de difusão do Folclore, realizou Exposições de Trajes e de Instrumentos Musicais; tem participado em programas de Rádio e Televisão; recupera e divulga tradições esquecidas no tempo como os Cantares de Reis, Cânticos Religioso-Populares, Dança do Rei David, entre outros.

Organiza anualmente o Festival Folclórico de Santo António – Luso / Espanhol, que tem sido ponto alto das Festas Concelhias de Vila Verde, onde participam, normalmente, grupos portugueses de regiões variadas e grupos espanhóis, também de diferentes regiões.
Organiza desde 2001 o Festival Folclórico InterNações (Julho) com o objectivo de trazer a Vila Verde, Povos, Tradições e Culturas de todo o Mundo.

É Sócio Efectivo e Fundador da Federação do Folclore Português, onde ocupa lugar no Conselho Técnico; está inscrito no Inatel; foi-lhe atribuída a Medalha de Mérito Municipal em 1983 ao atingir 25 anos de existência; e é Instituição de Utilidade Pública por Despacho Governamental desde 1992.

Historial transcrito do "sítio" do Grupo Folclórico de Vila Verde (http://www.gfvv.web.pt/).

domingo, 8 de novembro de 2009

Farol da Barra de Aveiro (parte II)

Reza assim, na parte que nos diz respeito, como se lê na revista "Arquivo do Distrito de Aveiro", em artigo assinado por Francisco Ferreira Neves:
" Há por bem sua majestade el-rei (D. Pedro V) ordenar que o director das obras públicas do distrito de Aveiro, de combinação com o capitão daquele porto, e com o director-maquinista dos faróis do reino, trate de escolher o local nas proximidades da barra que for mais próprio para a construção de um farol, devendo o mesmo director, apenas se ache determinado o dito ponto, proceder, de acordo com o referido maquinista, à confecção do projecto e orçamento da respectiva torre com a altura conveniente para que a luz seja vista a dezoito ou vinte milhas de distância.
Sua majestade manda, por esta ocasião, prevenir o sobredito funcionário de que encomendará em França, para ser estabelecido no mencionado local, um farol lenticular de segunda ordem, do sistema de Mr. Fresnel, e semelhante ao que se destina ao Cabo Mondego, cujo desenho se lhe envia, com a diferença, porém, de ser girante para o distinguir dos faróis que lhe ficam ao norte e ao sul daquele porto"
A Barra de Aveiro tinha sido aberta em 1808 e eram conhecidos os riscos que ela oferecia à entrada das embarcações, "com prejuízos que podem resultar à humanidade e ao comércio", como se sublinha na referida portaria.
No mesmo artigo de Francisco Ferreira Neves, lembra-se que a comissão nomeada para a determinação do local em que deveria ser construído o farol deu o seu trabalho por concluído em 11 de Julho de 1858. Entretanto, os naufrágios sucediam-se entre o Cabo Mondego e a Foz do Douro, "por falta de sinalização luminosa nesta parte da costa marítima".
(Continua)
Artigo da autoria do Prof. Fernando Martins e publicado no Livro do XXII Festival de Folclore, realizado em 8 de Julho de 2006.

sábado, 7 de novembro de 2009

O Baptismo na Gafanha - 2

Formado imediatamente o pequeno cortejo para casa, nela se entrava pela porta da cozinha e não pela da sala porque não era "bô".De regresso da igreja, o neofitozinho era apresentado à mãe pela madrinha que dizia: -“Aqui tendes o vosso menino; daqui o lubámos pagão e aqui o trazemos cristão, pela graça de Deus e do Sp’ito Santo”. A mãe, muito comovida, agradecia com expressões similares, cheias de muita fé e de muitas lágrimas, a graça que Nosso Senhor lhe fez, porque o seu menino já tem alma. Cena deveras emocionante, a que não ficavam indiferentes os circunstantes!
A seguir todos se sentavam à mesa e as crianças, à parte, pelo chão e em esteiras, para o jantar, não sendo excluída a família dos padrinhos. Na véspera tinha sido abatido um carneiro ou uma ovelha, que ao tempo não excedia o preço de 500 ou 600 réis.
Três pratos apenas, mas abundantes, sendo o primeiro a sopa de couve com batatas inteiras e negalhos ou molhinhos. Era o prato obrigatório e predilecto da maioria.
Os negalhos eram bocados do bucho e do fato gordurento do carneiro, de toucinho e hortelã, atados em molhinhos com linhas.
A seguir vinha outro prato, ou melhor, a frigideira com o refogado da outra carne que era condimentada com batatas ou com arroz.
De futuro e pela Páscoa, até ao casamento dos afilhados, os padrinhos iam levar-lhes os folares a que chamavam bolos, comprados em Aveiro à padeira de Eixo. Não tinham mais do que 2 ou 3 ovos com excepção do útimo que era no ano do casamento e que tinha 6 ovos.
Os afilhados iam agradecer aos padrinhos, pedindo-lhes a bênção de joelhos. Hoje consiste este agradecimento em ir estimar os padrinhos, oferecendo-lhes amêndoas e vinho, sendo rapazes.
Ainda se conserva o costume de os afilhados saudarem os padrinhos pedindo-lhe a bênção. Todos estes costumes têm recebido levíssimas alterações.
Aos nascimentos e baptismos andam ligadas muitas superstições. Eis algumas:
Se durante a gravidez a mulher trouxer no refego da cintura da saia qualquer objecto, a criança nasce defeituosa. Assim, se a criança nasce com o lábio fendido é sinal de que a mãe trouxe alguma chave no bolso ou na cintura durante a gestação.
Finas manchas rubras a pontear a epiderme denunciam a imprevidência da mãe costureira que arrecadou as agulhas em qualquer dobra dos vestidos junto à cintura.
Outras quaisquer colorações pigmentares, manchas ou sinais que interessam a epiderme da criança, têm a sua explicação no transporte de objectos na cintura, que estejam de harmonia com as colorações figuradas. Pois se a coloração figurativa de uma colher existente no braço de uma mulher, que ainda aqui vive, é apresentada como argumento indiscutível da falta de cautela da mãe! ...
Já não há perigo se os objectos se trouxerem na blusa.
A criança corre sempre o perigo de ser chuchada pelas bruxas antes do baptismo e deste modo morre sem alma. Por vezes a criança aparece viva, mas doente, fora do berço ou a grandes distancias. A criança é chuchada pelas unhas.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

As Novenas (parte III)

Claro que os tempos são outros e hoje as novenas caíram em desuso, tão certo estamos disso por não as vermos organizadas por esta Gafanha da Nazaré. Nas outras Gafanhas, não sabemos se ainda se mantêm, ou se também já foram trocadas por outras formas mais modernas de pagar promessas feitas em honra de aflições.
Não sabemos o porquê de essas promessas se apoiarem em nove meninos e meninas, rapazes ou raparigas, mas julgamos que o número nove terá algum valor simbólico ou mágico, a que os antigos estavam muito agarrados. Lembremos as orações e as comunhões nos nove primeiros sábados, por exemplo.
As novenas, como outras promessas feitas pelos católicos, estão também ligadas ao hábito de alguns quererem associar outras pessoas ou familiares às suas devoções. Nós próprios cumprimos algumas promessas feitas por outras pessoas. Minha mãe fez várias promessas que eu achei por bem cumprir para a não desgostar. E não só por isso. Se me diziam directamente respeito, porque não haveria de colaborar com quem teve a bondade e a devoção de interceder junto de Nossa Senhora por mim?
FIM
Artigo da autoria do Prof. Fernando Martins e publicado no Livro do XVI Festival, realizado em 8 de Julho de 2000.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Jantar de Angariação de Fundos

É já no próximo sábado, dia 21-11-2009, que o Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré vai realizar mais um jantar de angariação de fundos, pelas 19:30 horas, no Centro de Recursos Mãe do Redentor, na Colónia Agrícola.
A ementa será a seguinte:
Pêssego com presunto
Sopa de legumes
Rojões à Gafanhão
Fruta e doces variados
Vinhos, sumos, café e digestivo.
O custo é de 10 euros por pessoa.
Todas as pessoas se podem inscrever, basta para isso contactar qualquer elemento do grupo, ou através dos telefones:
Lurdes Matias – 966 353 980
Ferreira da Silva – 917 583 111
Rubem – 963 225 283
Vamos fazer deste jantar um grande convívio entre todos os participantes. Inscreve-te e traz um amigo.

sábado, 31 de outubro de 2009

Farol da Barra de Aveiro

Foco luminoso, eléctrico, foi montado há 70 anos.

O Farol da Barra de Aveiro, situado em pleno concelho de Ìlhavo, na Gafanha da Nazaré, é um ex-libris da região aveirense. Imponente, não há por aí quem não o conheça, como um dos mais altos de Portugal e até da Europa. Já centenário, faz parte do imaginário de quem visita a Praia da Barra. Quem chega, não pode deixar de ficar extasiado e com desejos, legítimos, de subri ao varandim do topo, para daí poder desfrutar de paisagens únicas, com mar sem fim, laguna, povoações à volta e ao longe, a dominar os horizontes, os contornos sombrios das serras de perto e mais distantes.
À noite, o seu foco luminoso, rodopiante e cadenciado, atrai todos os olhares, mesmo os mais distraídos, tal a sua força. Mas são os navegantes, os que mais o apreciam, sem dúvida.
Ora, esse foco, que começou por ser alimentado a petróleo, passou a beneficiar da energia eléctrica em 1936, completando, este ano, 70 anos de existência. Bonita idade para tal melhoramento merecer ser assinalado, embora de forma simples, com esta nota.
Se tem lógica e algum merecimento a recordação desta efeméride, não deixa de ser oportuno e justo lembrar que este ano também se podem celebrar os 150 anos da portaria do ministro das Obras Públicas, engenheiro António Maria de Fontes Pereira de Melo, assinado em 28 de Janeiro de 1856 e dirigida ao director das obras públicas do Distrito de Aveiro, engenheiro Silvério Pereira da Silva, que dá orientações para se avançar, rumo à futura construção do nosso Farol.
(continua)
Artigo da autoria de Fernando Martins e publicado no Livro do XXII Festival, que se realizou a 8 de Julho de 2006.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O Baptismo na Gafanha -1

Hoje irei transcrever o que a “Monografia da Gafanha”, do Padre João Vieira Rezende, nos diz sobre o baptismo.
Quando nascia na Gafanha uma criança, a grande alegria dos pais não era menos jubilosa entre a pequenada já existente naquele lar. Era ver a sofreguidão com que cada um dos miúdos reclamava para o seu colo o recém-nascido, e também a ingenuidade com que acreditava nas subtilezas e dissimulações discretamente empregadas pelos pais para comunicar este faustoso acontecimento sem lhes despertar curiosidades prematuras, desnecessárias e inconvenientes à idade infantil.
E as frases anunciadoras, recebidas dos pais, eram transmitidas pelos lábios rosados dos filhos à garotada que brincava na areia despreocupadamente.
- A minha mãe, esta noite, foi buscar um menino à borda! (margem da Ria).
-Meu pai trouxe uma menina da bateira dos labregos!
-Minha mãe achou um menino na Costa-Nova!
-Minha mão foi à feira comprar uma menina!
É assim mesmo.
A mulher da Gafanha diz-se que anda a comprar durante o seu estado de gravidez.
É durante esse período que se vai preparando o enxoval e o berço, que afinal é uma pobre canastra confeccionada com fasquias de verga, constando aquele de duas faxas, duas camisinhas, dois lencinhos, cueiros e fraldas.
Quando esta indumentária se junta para lavar chama-se-lhe “fatiota”.
O que mais importava porem, era o baptismo, que só excepcionalmente se realizava após o oitavo dia do nascimento.
O nome a dar ao catecúmeno era escolhido pelos padrinhos ou pelas madrinhas, conforme o sexo, e era aos avós paternos e maternos que se dava essa honra para os primogénitos. Só para os outros baptizandos serviam de padrinhos os outros membros da família ou outros indivíduos das suas relações.
Cada padrinho oferecia ao afilhado um outro enxoval superior na qualidade ao dos pais; constava de duas camisas, dois vestidos (espécie de bibe), dois lencinhos e uma manta de baeta de um metro.
A criança levava à pia o enxoval da madrinha, ordinariamente mais rico do que o do padrinho, sendo costume adicionar à mantilha (manta), prendendo-se-lhe interiormente com linhas, uma toalha branca, engomada, e com rendas a saírem por cima e a formarem tufo em volta do rosto da criança.
Esta era ainda levada à pia pela parteira que, depois de realizado o baptismo, a ia oferecer a Nª Senhora, prostrada de joelhos diante do altar.

domingo, 25 de outubro de 2009

As Novenas (parte II)

Se a novena era a um lugar perto da Gafanha da Nazaré, regressávamos a casa onde nos era servido um pequeno lanche à base de tremoços, pevides e um ou outro bolito. Para regar o que se comia, bebia-se água do poço e em casos especiais lembro-me bem de ter bebido um pirolito (gasosa em garrafinha com uma bola de vidro a servir de rolha, fixa no gargalo pela pressão do gás do próprio líquido). Se era longe, a merenda era mesmo ali, no largo da capela ou da igreja, a uma sombra qualquer, que naquelas idades nem se dava por ela. Contavam-se umas histórias, cantavam-se umas cantigas, algumas religiosas e ao gosto da "dona" da novena, olhávamos uns para os outros , e vice-versa, brincávamos, corríamos e saltávamos, e a um sinal da chefe lá regressávamos a casa, com uma tarde vivida de forma bem diferente, que naqueles tempos não havia televisões nem rádios com que passar o tempo.
Quantas vezes a organizadora da novena, talvez pelo gosto de se ver rodeada de gente nova, até marcava uma nova novena para o próximo ano. É que, naqueles tempos, os "médicos" do corpo e da alma das pessoas , para além dos curandeiros, eram muitas vezes os santos e Nossa Senhora, a quem se recorria em horas de aflição. Nunca nos lembramos de ter participado em qualquer novena em honra de Jesus Cristo, do Espírito Santo ou de Deus-Pai.
Diz o padre Resende, na sua já famosa Monografia da Gafanha, que "o povo da Gafanha, desde épocas remotas, vai em novena à Senhora de Vagos, a Santa Maria Madalena da Tabueira e do Rio Tinto e a outras igrejas e capelas circunvizinhas". E refere que "nas suas aflições recorrem sempre a Deus ou aos santos, e por vezes o cumprimento das suas promessas era bastante penoso".

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Puros disparates - 2

Aliás, é aqui precisamente, que encontramos duas habituais aberrações, tão caras aos nossos dirigentes folclóricos. Primeiro as noções de “genuíno”, “autentico”, “puro”! Como se existisse algo a que pudéssemos chamar folclore primordial; remontando ao inicio dos tempos, original e imaculado! Depois a noção de que o antigo é “mais folclórico”, mais autêntico, mais prestigiado!
Destes dois equívocos advém, depois um universo de disparates! Apregoa-se por exemplo a representação do “mais genuíno folclore minhoto”, do “mais puro folclore saloio” ou do “mais autêntico folclore ribatejano”! Proliferam as “capitais do folclore”. Proclama-se a especial “riqueza do folclore “daquela terra ou região! Apresentam-se trajes, com “três ou mais séculos”, os quais (se tal pretensão fosse verdadeira), estariam absolutamente descontextualizados de uma representação folclórica que se quer coerente no tempo e no espaço.
Enfim, um autêntico chorrilho de asneiras! Quando afinal, para se construir uma boa representação folclórica, basta apenas apresentar as vivências padrão da área cultural que escolhemos representar. Tanto quanto é possível, claro, hoje conhecê-las. Respeitantes estas, a um tempo a que foi possível remontar, num processo de pesquisa minimamente honesto e rigoroso.
Apenas isto!
P.S.- Se como usa dizer-se, um disparate proferido por uma “eminência parda” é uma tirada genial, calcule-se o que para aí vai de génios! Não admira assim, que os”Óscares” tenham chegado (para ficar já se vê), ao folclore nacional.

Boas leituras
Rubem da Rocha

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Casa Gafanhoa - Um pouco de história (III)

No momento da discussão do Plano Director MUnicipal (PDM), na altura da presidência da Câmara de Humberto Rocha, o Grupo Etnográfico alertou a autarquia para a necessidade de ser contemplada a Casa Gafanhoa já devidamente identificada. Depois desse alerta, a Câmara de Ílhavo tentou negociar o imóvel com os proprietários, sem que o tenha conseguido. E foi no mandato de Ribau Esteves que o negócio se concretizou, para gáudio de todas as partes, em especial dos que acreditam ser esta a melhor solução para o Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré poder mostrar às gerações actuais e futuras o que foi e como foi o viver dos nossos avós.
A Casa Gafanhoa, devidamente restaurada em obediência a todas as regras históricas, etnográficas e arquitectónicas, vai servir de museu vivo, depois de mobilada e revestida de todos os pormenores que definem a sua época, ou seja, as décadas de 20/30 do presente século (ver descrição na brochura de 1998).
Em Agosto poderá proceder-se à inauguração da Casa Gafanhoa, se entretanto as obras forem concluídas e houver tempo para a montar com todo o rigor histórico. A partir daí, passará a ser um museu etnográfico, com muito que contar a quem o visitar.
A transcrição deste artigo, que hoje termina, é da autoria do Prof. Fernando Martins e data de Agosto de 2000 tendo sido publicado no livro do XVI Festival de Folclore. Nesta altura perspectivava-se a abertura da Casa Gafanhoa, o que veio a acontecer em 11 de Novembro de 2000.

sábado, 17 de outubro de 2009

Igreja Matriz da Gafanha da Nazaré

A Gafanha da Nazaré é uma terra que tem evoluído muito ao longo dos tempos. Os seus habitantes não têm poupado esforços no sentido de a tornar mais moderna e mais acolhedora, quer para os naturais, quer para quem a visita. Povo religioso por natureza, procura cuidar do seu templo de modo a que também este reflicta a modernidade da terra.

Deixamos aqui alguns registos fotográficos de épocas distintas para ilustrar o que atrás foi dito.



sexta-feira, 16 de outubro de 2009

As Novenas (parte I)

Não é novidade para ninguém se dissermos que os nossos avós eram gente crente, de uma fé inquebrantável bebida no seio da família, onde as oraçõe quotidianas tinham hora marcada. Ao levantar e ao deitar ficavam por conta de cada um, mas às refeições e antes da ceia eram momentos de oração colectiva, com o terço a marcar presença na grande maioria dos lares gafanhões. O pai ou a mãe, se aquele andava embarcado, ou um dos filhos orientava a reza do terço, onde no final eram recordados todos os familiares falecidos, com, por vezes, intermináveis orações por suas almas.
Mas hoje vamos lembrar as novenas que, como o nome indica, eram promessas em que participavam, para além da pessoa em dívida para com qualquer santo ou santa, ou mesmo Nossa Senhora, nove pessoas, normalmente gente muito nova. Também participámos em algumas delas, por motivo que hoje as queremos recordar, sabendo de antemão que alguma coisa passará, tantos são os anos que já se foram.
A "dona" ou o "dono" da promessa fazia os inevitáveis convites a nove meninos e meninas, ou só meninos ou só meninas, rapazes e ou raparigas, conforme o prometido, e no dia aprazado, normalmente ao domingo ou em qualquer dia santo de guarda, lá íamos em grupo, a pé, ora à Senhora da Saúde, na Costa Nova, ora à Senhora dos Navegantes, no Forte, ora ao São João, na Barra, ora à Senhora de Vagos, onde rezávamos o terço e uma ou outra oração da devoção da organizadora da novena, para depois se regressar.
(Continua)
Artigo da autoria do Prof. Fernando Martins e publicado no livro do XVI Festival de Folclore, realizado em 8 de Julho de 2000.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Puros disparates - 1

Vamos hoje transcrever um trabalho publicado no Jornal Folclore nº 164, do mês de Outubro, da autoria do Dr. Aurélio Lopes.
A ausência de uma adequada uniformidade de conceitos é, provavelmente, o maior problema que se coloca, hoje em dia, ao movimento folclórico. Até porque, deste, decorrem diversos outros, a exemplo da gravosa promiscuidade que grassa nesta área da cultura tradicional portuguesa. Alias, é precisamente a quase omnipresente ausência sistemática de rigor conceptual, que nos impede de aperceber a extrema variedade de projectos e manifestações que, à falta de melhor denominação (leia-se classificação), se acoitam sob a bandeira do folclore. Projectos que vão desde a pretensão cultural de representar, coerente e rigorosamente, vivências tradicionais bem definidas no tempo e no espaço, até à mera utilização de alguns estereótipos populares como matrizes inspiradoras de um espectáculo de animação turística ou recreativa.
Entre estas duas realidades manifesta-se, naturalmente, toda uma infinidade de situações. Todas igualmente respeitáveis, é claro, mas que correspondem, naturalmente e conceptualmente, a realidades diferentes que como diferentes, deveriam ser encaradas.
Necessitamos assim de perceber (antes do mais), o que se entende por Folclore. De nos familiarizarmos com os seus pressupostos de abrangência, diversidade, mutabilidade e principalmente, funcionalidade. Sem eles “andamos ao Deus dará”. À procura de bengalas que usamos a torto e a direito (mais a torto que a direito), mas das quais, muitas vezes, nem sequer sabemos bem o que querem dizer. Necessitamos de interiorizar o que é que se entende por “Cultura tradicional”. Precisamos de saber que esta (como qualquer cultura tradicional ou não), não surgiu por geração espontânea e não nasceu já feita! Pelo contrário, consubstanciou-se através de milénios de aculturações efusões culturais, evoluindo gradualmente até às versões dos nossos dias. E que assim, cada estádio de evolução vale tanto como aquele que o precede e como o que o segue.
(continua)

Boas leituras
Rubem da Rocha

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Fotografias antigas da nossa terra

Farol da Barra em construção
Praia da Barra há uns anos atrás

Esta ponte suponho ser a que ligava o Forte à Praia da Barra. Se porventura não for, agradeço que me corrijam.

sábado, 10 de outubro de 2009

Rigor ou aplauso, o drama do folclore


Navegando pela net encontrei um artigo interessante sobre folclore e que pode ser lido aqui. Espero que o achem interessante, tal como eu o achei, e que sirva de algum modo para uma reflexão profunda sobre a importância de preservar o que os nossos antepassados nos deixaram. Um povo sem memória é um povo sem futuro, ainda mais nos dias de hoje com a tão falada globalização e a consequente perda de identidade.

Casa Gafanhoa - Um pouco de história (II)

Sala do Senhor
Tratava-se de uma vivenda de lavrador rico, que fora também proprietário e gerente de uma empresa de bacalhau, dos anos 20/30, bem conservada e com possibilidades de restauro a condizer com o sonho alimentado pela Direcção e por quantos vivem os problemas histórico-etnográficos com amor e devoção.
Não seria uma casa de um lavrador pobre, que essa já não seria fácil encontrar em razoável estado de conservação, mas de uma família que, tendo outras posses, nunca deixou de amanhar a terra e dela tirar algum sustento para o agregado familiar. Além disso, mantinha traços genuínos com a frente com uma porta e duas janelas e o telheiro e o celeiro ao lado, e ainda com um acesso lateral que conduzia à cozinha e ao pátio interior, à volta do qual se situavam os currais dos animais. As divisões eram pequenas e havia sinais evidentes de usos e costumes próprios dos nossos ancestrais. Da ideia e do sonho partiu-se ao encontro da sua concretização. Em 1991, o Grupo Etnográfico entrega em mão, na Costa Nova, ao então primeiro-ministro Cavaco Silva, uma petição para a aquisição da já desejada Casa Gafanhoa, e no mesmo ano a Secretaria de Estado da Administração Local e do Ordenamento do Território sugere que deveria ser apresentada uma candidatura aos Programas de Equipamento, junto da Comissão de Coordenação da Região Centro, o que foi feito por intermédio da Junta de Freguesia e da Câmara Municipal de Ílhavo em 1994.
Continua
Artigo da autoria do Prof. Fernando Martins e publicado no livro do XVI Festival de Folclore, realizado em 8 de Julho de 2000.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Gafanha da Nazaré – Um pouco da sua história (1)

Vamos hoje transcrever um trabalho elaborado, a partir de algumas fontes, por Maria Noémia Ribau, aquando da frequência do 12º ano, em 1989, na disciplina de História. Sabemos que, com este trabalho, não vamos acrescentar nada ao que já se conhece, mas contudo fica este apontamento.
Importa referir a bibliografia a que se recorreu para a elaboração do trabalho, a saber:
- Arquivos do museu de Ílhavo, Gafanha da Nazaré, A mulher na Gafanha
- Boletim Cultural n.º 1 - 1985, Gafanha da Nazaré
- Boletim Cultural n.º 2 - 1986, Gafanha da Nazaré
- Etnografia Portuguesa Vol. III - 1980, Dr. J. Leite de Vasconcelos
- Gafanha da N.ª S.ª da Nazaré - 1986, Manuel Olívio da Rocha e Manuel Fernando R. Martins
- Monografia da Gafanha da Nazaré 2ª Edição, Padre João Vieira Rezende
Pretende-se com este trabalho, dar uma visão geral sobre a vida de um Gafanhão, no princípio do séc. XX.
Nele serão focados aspectos, factos e superstições desde o seu nascimento até à morte. Para melhor compreensão, será feito um pequeno historial, sobre o aparecimento e desenvolvimento da Gafanha da Nazaré.
A região das Gafanhas começou a ser habitada no séc. XVII e em 1758 era já uma povoação com “ 14 vizinhos ou fogos e 40 pessoas de sacramento”. Era gente humilde que se entregava, com sacrifício à transformação das dunas improdutivas em terra fértil, que hoje mostra bem a tenacidade dos primeiros Gafanhões.
Quem conheceu, mesmo que superficialmente a história desta região, não pode deixar de admirar quantos aqui se estabeleceram, tão radical foi a transformação que operaram neste recanto beijado pelo mar e pela ria. E se, por um pequeno esforço de memória, pudermos imaginar os modestos meios de que dispunham, então terá de crescer essa admiração e o gosto que sentimos de aos mais novos transmitirmos, vestígios de um passado a todos os títulos glorioso.
No século passado incrementou-se o povoamento, graças a gentes vindas principalmente dos concelhos de Vagos e Mira, tão necessitados se encontravam de terra para cultivar. E é curioso verificar como o povo de Ílhavo e de Aveiro nunca se interessou pelo aproveitamento destes areais esbranquiçados e estéreis, passando por eles, sobretudo a caminho do mar.
Terra beijada pelas águas calmas da formosa Ria de Aveiro, a Gafanha nasceu e criou-se, também à sombra do mar e de tudo o que lhe está ligado, ou não fosse ele e os seus portos razão de ser de grandes povoações.
Em épocas diversas esta região foi ocupada e reocupada por gentes de usos e costumes variados, que se introduziram nos usos e costumes dos caseiros que por aqui se haviam estabelecido, com a ânsia primeira de dominarem dunas teimosas e estéreis, à força de braços habituados a trabalhos duros.
Depois foram os trabalhos nas obras do porto e construção do farol, nos estaleiros e nas secas do bacalhau, nas salinas e na plantação da mata da Gafanha que atraíram esses povos, vindos do Minho até às Beiras, sobretudo onde escasseava o ganha-pão.
(continua)

Boas leituras
Rubem da Rocha

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Convívio do Grupo Etnográfico

Realizou-se ontem o convívio do Grupo Etnográfico da Gafanha da Nazaré. Foi um dia bem passado, bem comido, bem bebido e bem cantado. O tempo ajudou à festa e no final todos reconheceram a importância destes convívios que permitem o estreitar de laços de amizade. Deixo aqui algumas fotografias deste dia bem passado.







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